Das coisas que finjo não perceber
Eu estava
precisando relaxar antes de começar a escrever novamente, então coloquei um cd
do The Doors para tocar e sentei-me
em frente ao ventilador. Precisava de um estímulo para voltar a escrever, por
isso comecei a assistir um seriado sobre um escritor libertino que não escrevia
nada há anos e me identifiquei com ele. Projetinho de Bukowski. Meus amigos diziam que eu era uma pseudoescritora e que
não escrevia porra nenhuma. Bem, confesso que escrevo sobre mim mesma, mas não
acho que o mundo gire ao meu redor, assim como não sou uma deprimida nem nada,
apenas estou cansada de ter pessoas que dão palpites sobre a minha vida sem nem
ao menos conhecer-me e me julgam pelo meu suposto estereótipo.
Eu
precisava dormir melhor, pois a paralisia do sono estava se tornando constante.
Ele dormia durante o dia e eu durante a noite, ou seja, já não dormíamos juntos
como antigamente, um lado da cama sempre estava vazio. Já não fazíamos sexo
regularmente e eu estava fumando mais e bebendo mais café, mas pelo menos
estava conseguindo fazer minhas necessidades básicas em paz.
Estávamos
com um hóspede no apartamento, um gatinho amarelo chamado Romeu que não gostava
de deitar em cima do sofá nem da cama, comia pouco e eu raramente o via
dormindo. O gato era de uma amiga minha que estava viajando nas férias.
Não
havia mais nada para beber além de leite, café, vodca e cachaça. E água, claro.
E eu queria suco, porque água não tem
graça. Vivíamos de frango, carne moída e macarrão. Não éramos saudáveis e
gastávamos todo nosso dinheiro em cigarros e bebidas. Mas eu estava tentando
organizar minha vida. Queria comprar livros, roupas, arrumar um emprego,
estudar com mais foco, ter mais disciplina, ler e escrever mais, assistir mais
filmes, enfim, organizar minha vida. Precisava de dinheiro para fazer mais
tatuagens, faltavam três dias para meu aniversário de dezoito anos e eu estava
completamente fodida. Mas pelo menos já não lavava as roupas dele, porque bem,
ele viva falando de sua ex-namorada e conversava com ela diariamente como se
eles ainda estivessem juntos. Que garota idiota, colocava a culpa em mim, sendo
que ele era o cachorro da história. Foi ele que me agarrou mesmo estando
namorando com ela. E bem, não era a primeira vez que ela era traída.
Eu
precisava de um comprovante de renda para fazer uma conta no banco, precisava
fazer meu cartão de transporte, precisava ir até a biblioteca, precisava
começar a tomar pílula e a me depilar com cera, precisava ir ao dermatologista
tratar minhas pernas horríveis, precisava ir ao supermercado, precisava comprar
cigarro, precisava comprar alguns livros, precisava voltar a praticar teclado, precisava ligar à minha mãe e
explicar a ela que não queria ir para casa naquelas férias, porque meu pai não
podia ver minhas tatuagens e eu passaria calor usando roupas que cobrissem meu
corpo e não poderia entrar na piscina e nem sair à noite para transar com alguém.
Essas eram as coisas que eu precisava urgentemente, sem distinção entre as
corriqueiras e as mais sérias, essas coisas vinham se arrastando há meses e eu
não tinha coragem de mandá-lo embora do apartamento porque queria poder foder
com ele todos os dias, mas ele andava com preguiça de foder e só queria jogar. Era
uma criança idiota e já não combinava comigo como parecia ter combinado um dia.
América latina, amor, você não é tudo isso... Perdeu minha lista de livros que
um cachorro vira-lata deve ler antes de morrer, pois bem, continue jogando e
não estude para os concursos. Seja um fracassado, porque afinal eu serei uma
professorinha de espanhol de merda. Espere
sua namoradinha voltar e case com ela. Volte para casa do papai. Esqueça-me. Estou
indo para São Paulo. Não pretendo te ver novamente. Arrependa-se de ter sido um
idiota e achado que eu não servia para namorar. Continue mentindo coisas
idiotas e julgando as mulheres pelo físico. Continue mentindo para si mesmo. Sinta
saudades minhas. Seja vazio, como eu nunca pensei que você fosse. Pegue herpes
de mim e morra de dor. Quem sabe assim pare de rir de tudo e de agir como
quando eu tinha doze anos enquanto me chama de imatura.
Eu continuarei cozinhando para nós e você comprará um pouco de comida quando meu pai parar de comprar. E não pagará o aluguel nunca e parará de comprar cigarro para mim e continuar roubando os meus, meu branquinho... Eu não me importo, meu pai paga sua luz, sua água, sua internet, sua televisão a cabo, seu gás e você ainda leva a filha dele de brinde. Queria lhe perguntar como deve ser viver à custa de quem você não conhece e ser casado com uma garota que você nunca namorou porque é filho da puta. Dois orgulhosos filhos da puta é isso que somos. Seu pau torto e minha tatuagem sugestiva terminando nas costas. Nossas putarias e nosso bluebird no coração que quer sair, mas somos mais fortes que ele. Nossa falta de vergonha na cara, nosso amor por cinema nacional. Nossas lágrimas que ninguém vê, nossa masturbação e nossa maneira de explorar as pessoas e as coisas. Insaciáveis, aproveitando todo e qualquer tipo de oportunidade que aparece em nossa frente. Apenas as mais fúteis delas, as mais momentâneas, já que as relações humanas não são duráveis, pegamos uma parcela de tudo e transformamos em memórias eternas. E você levanta às dez da manhã e toma seu remédio para asma e me olha com os olhos pequenos e pergunta quando levantei e eu digo que foi quando você foi dormir às sete da manhã e você volta para cama e eu estou morrendo de azia. Acendo um incenso barato e fico vendo o gatinho comer. Eu te amo, mas te odeio mais ainda. Eu só queria saber como usar melhor nossa relação, mas estou perdida. Talvez um dia possamos enxergar com clareza toda essa merda, quando estivermos com trinta e poucos anos talvez e estivermos livres de pequenas preocupações e tivermos um emprego e talvez filhos, quando as vagabundas que comemos juntos estiverem casadas, com filhos e forem adúlteras e quando tivermos a certeza de que fizemos tudo o que podíamos e lembrarmo-nos dos cheiros, gostos e sensações que tivemos juntos. Talvez não seja tarde demais e assim voltemos ao círculo interminável das nossas próprias incertezas.
Eu continuarei cozinhando para nós e você comprará um pouco de comida quando meu pai parar de comprar. E não pagará o aluguel nunca e parará de comprar cigarro para mim e continuar roubando os meus, meu branquinho... Eu não me importo, meu pai paga sua luz, sua água, sua internet, sua televisão a cabo, seu gás e você ainda leva a filha dele de brinde. Queria lhe perguntar como deve ser viver à custa de quem você não conhece e ser casado com uma garota que você nunca namorou porque é filho da puta. Dois orgulhosos filhos da puta é isso que somos. Seu pau torto e minha tatuagem sugestiva terminando nas costas. Nossas putarias e nosso bluebird no coração que quer sair, mas somos mais fortes que ele. Nossa falta de vergonha na cara, nosso amor por cinema nacional. Nossas lágrimas que ninguém vê, nossa masturbação e nossa maneira de explorar as pessoas e as coisas. Insaciáveis, aproveitando todo e qualquer tipo de oportunidade que aparece em nossa frente. Apenas as mais fúteis delas, as mais momentâneas, já que as relações humanas não são duráveis, pegamos uma parcela de tudo e transformamos em memórias eternas. E você levanta às dez da manhã e toma seu remédio para asma e me olha com os olhos pequenos e pergunta quando levantei e eu digo que foi quando você foi dormir às sete da manhã e você volta para cama e eu estou morrendo de azia. Acendo um incenso barato e fico vendo o gatinho comer. Eu te amo, mas te odeio mais ainda. Eu só queria saber como usar melhor nossa relação, mas estou perdida. Talvez um dia possamos enxergar com clareza toda essa merda, quando estivermos com trinta e poucos anos talvez e estivermos livres de pequenas preocupações e tivermos um emprego e talvez filhos, quando as vagabundas que comemos juntos estiverem casadas, com filhos e forem adúlteras e quando tivermos a certeza de que fizemos tudo o que podíamos e lembrarmo-nos dos cheiros, gostos e sensações que tivemos juntos. Talvez não seja tarde demais e assim voltemos ao círculo interminável das nossas próprias incertezas.
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