Revolução de cimento


                Tenho a necessidade absurda de, de alguma maneira, vingar-me do mundo. Gosto de surpreendê-lo, mostrar a ele que sou capaz sim de me submeter muitas vezes até mesmo ao ridículo só para posicionar-me contra algo, porque estou cansada do rádio, da TV, da internet, de tudo, parece até rebeldia esse sentimento, mas não é, é vontade de revolução, e muitas vezes a rebeldia é necessária, porque é ingrediente necessário para chegar à revolução, só não gosto que a chamem por esse nome, rebeldia soa adolescente demais. Sinto falta das ruas, das praias, avenidas inteiras com gente andando de bicicleta, com livros nas bolsas e sonhos de liberdade na cabeça. Sinto a falta de ver carros na rua tocando Aerosmith e pessoas dentro bebendo cerveja em frente a barracões cheios de gente feliz, com suas famílias e shorts cheios de areia e de chinelos. Entretanto, como na maioria das vezes, escolhi o urbano. Talvez porque ele faça parte de mim, os esgotos, os prédios, o cimento, a poluição, o cinza, o ar pesado, lugares apertados de pessoas com tempestades em suas cabeças entupidas de anfetaminas. Pessoas premeditadas à. Pessoas confabulando revoluções televisionadas. Pessoas cheias de estereótipos vencidos.
                Talvez meu estereótipo seja vencido. Talvez minha realidade seja uma merda e eu não admita isso. Necessito de mudança, tenho sentido fortemente que nada dá certo para mim. Chamam-me de boba, mimada. Não tenho dúvidas que o sou, porém também não sou uma princesa. As pessoas me ofendem sem perceber ou eu sou simplesmente facilmente “ofendível”? Talvez alguns tombos me façam bem, na verdade, eles têm me feito muito bem. E eu vou bem, obrigado. Quem não me pergunta como estou eu simplesmente amasso e jogo no lixo. Não gosto de reciclar nada.
                Pensando bem, toda essa merda pela qual passei/passo/vou passar me dá a grande-não-tão-grande-assim chance de escrever. Eu não gosto de escrever, eu apenas preciso, afinal, restam poucos objetos que eu possa despedaçar. Anaïs Nin disse: “Os escritores fazem amor com qualquer coisa de que precisam.” e eu concordo com ela. É a mais pura verdade de qualquer artista nato. Somos facilmente atraídos por qualquer estúpida p-o-s-s-i-b-i-l-i-d-a-d-e. Afinal, tudo pode se tornar um poema que seja. E poemas libertam a nós, escritores e a nós humanos e artistas em geral. O problema é que nunca basta para nós, há sempre algo a ser feito, ou que poderia ter sido feito ou que poderá ser feito. Há uma sede insaciável dentro de nossas cabeças e corações. As vozes dos demônios gritam o tempo todo para que paremos de ser covardes e nos joguemos no precipício imortal da insanidade que produz nossa arte. É o tipo de poço que nunca seca. Precisamos de poemas porque nossa vida já é dura o bastante para lermos apenas sobre cientologia. E aqueles que se prendem à praticidade viram escravos de máquinas que não sabemos se estragarão daqui a dois minutos ou se continuarão funcionando depois de nossa morte. Isso é bizarro e deprimente.
                Minha sensibilidade é tão aguda que se um desconhecido disser que me ama eu acredito e me apaixono, mas se disser que me odeia eu o mato ou mato a mim mesma. Talvez isso não seja sensibilidade, e sim carência. A que nível cheguei!

                

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